Tuesday, April 18, 2006

Metamorfose



Escrever era fácil
Do dificilíssimo ao insuportável
como num
piscar de olhos

Agora, que escrever é impossível, a gente dá
um jeito -

há trevas :
atreva-se


.
Curta-metragem ou novela?


Vaca amarela
cagou na panela
ou foi um gato que comeu a língua dela?

Passa e faz pose
na passarela
Não fala nada e tudo fala ela

Menina bela do
olhinho azul
Um bigo no piercing nas costas
nas costas tatoo

Cem por cento pecado
o corpo impecável e o blue
dos olhos no piercing nas costas
nas costas tatoo

Perca esse salto
de Cinderela
que eu lhe pago algo à luz de velas

Curta-metragem
ou novela?
Roteiros tantos para o elenco de dois.



Cidadão das nuvens
Renato Silva

Tuesday, April 04, 2006

A batalha das aranhas azuis



O meu golpe covarde (e certeiro)
pelas costas do inimigo
fez-se o ventre do qual
nasceram
milhares de estátuas
cada uma com o mesmo
par de olhos tristes que - ao
contrário de minha
boca - fecharei um dia.

Em todo onze de novembro
livres da inanimação graças
ao milagre anual
tais esculturas, em gangue, promovem
arruaças pelos
quatro cantos do mundo celebrando
o que a história não oficial
batizou :
A batalha das aranhas azuis -

Apedrejam vidraças universitárias
ao sul da Califórnia.
Na neve de Moscou, guerreiam, infantilmente.
As Tupiniquins disfarçadas
de escritores consagrados cometem
pequenos furtos
na lentidão dos semáforos.
Aos pés da Torre Eiffel (bem como
no ponto mais alto da Cordilheira
dos Andes) bebem
vinho comem
carneiro fumam
ópio tocam
flauta recitam
meus poemas e agradecem a Deus
pelo feriado não oficial.

Ao final do espetáculo voltam
cambaleando a seus postos e
misturadas às estátuas oficiais retomam
a certeza de que
quase nunca serão
notadas talvez
por um cachorro mijão
ou
sabe-se lá por
um universitário
extremamente
atento.
Durante a chuva de bolhas puges com uma resposta dentro



Puge :
Cor do inseto de mesmo nome.
Dotada de raro poder
hipnótico arrepia a quem
avistar-lhe seja na pele
da terceira lua, nos olhos da
mulher-coruja ou no
mágico líquido - pai
da eterna guerra entre
Tríplice Serena : elfas, gnomos e
magos ; e Tríplice Encantada : fadas,
duendes e unicórnios -
cujo odor encontra
metáforas na expressão absurda
de quem o descobre mas nunca
na finitude das palavras que
inocentemente
afirmam :
o doce daquela poção
feito sonho de bebê.

E
se depois
enquanto flutuares com as
árvores pelo céu chimpute (outra cor
inimaginável) durante a chuva de
bolhas puges com uma resposta dentro e
margaridas sabor chocolate sua
curiosidade - que atravessara o portal e
bebera daquela fonte - se perguntar mas
quem é esse alquimista fabuloso que
deixou a água a ver navios saiba
de antemão :
Deus é Deus por ter
feito a água
incolor - insípida - inodora quando
poderia mais, muito mais, tudo e mais
um pouco, muito mais que
essa
poçãozinha
dos diabos.



Cidadão das nuvens
Renato Silva

Wednesday, February 15, 2006

à flor da pele : apelo



a flor da pele : o pêlo



.

b
mudo
no
a
b
surdo


.
A foto de um ácaro


Noite cinco estrelas
Noite menina
Noite bandeira da China

Menina me nina
antes do clarão
que é
bandeira Japão

Lua fatia
de melancia
Lua bandeira da Turquia

Num sonho bobo
lhe arranquei
bandeira u-é-sei

Para fincar a bandeira
de não levantar
jamais bandeira alguma

Lua moondo no fundo
no fundo o mundo
o mundo é coisa nenhuma

e quando digo estrela
é só metáfora a estrela, amor
Poderia ser o fundo
do mar o mar em outra cor

Por isso mesmo anteontem eu
ampliei -de tão sonhador-
a foto de um ácaro
mais de mil vezes no computador.


.
Novidade (lua e candelabro)


No frio da noite eu quis
enfiar a cara
num buraco negro

(não existe amor)

Já não se pede bis
e é só clicheguevara
versus desassossego

(feda-se a flor)

Estamos longes distantes demais
Um passo à frente com um pé atrás
Orelha atrás: uma pulga
Ouvido atrás de uma vulga

novidade

Existe outro país
mas é seu o Saara
tua bolha meu nego

(suporte o calor)

Para estar feliz
só na magia rara
de um bom chamego

(o pôr-do-sol: opor)

Seja você seja como for
Nosso desejo maior que a dor
Sinceridade antes da fé
Ressuscitar já não é

novidade

Caixa de pandora
contra o caixão

Luz no fim do túnel
nem que seja lampião
cuspindo fogo

(cuspindo fogo)

Lua e candelabro
contra a escuridão

Um ser supremo ser
nem que seja um dragão
cuspindo fogo

(cuspindo fogo)




Cidadão das nuvens
Renato Silva

Monday, February 06, 2006

O abacate



O abacate projeto.
O abacate conceito.

Ainda sem cor e forma.
O abacate rascunho.
Ainda sem sabor.
Antes do primeiro abacateiro desse mundo.

O abacate na cabeça de Deus :
uma idéia a concretizar-se.



.
Útero e algoz


Costurei um vudu
à sua imagem e semelhança
(para uso caseiro)
com a agulha
(útero e algoz)
que encontrei no palheiro

Por um erro de cálculo
saíste melhor e a encomenda
de uma multinacional
não tardou a chegar

O meu, sucesso de vendas
em toda a América Latina,
há de ter
concorrente à altura.


.
Quando meninos cospem (domingo no parque)



Uma roda gigante
envolve o carro do pipoqueiro

Ninguém na fila trem
fantasma no banheiro

Nem todo banco é banco
o do casal virou castelo do amor

O sol no tobogã
A lua que chegou

O preço do bilhete
faz a mulher virar bicho

Um carrossel de abelhas
vira dumbo no lixo

Tomei um chá de sumiço
quando achei a xícara maluca

Dá medo olhar a fila
da montanha russa

Quando meninos cospem
do teleférico:
é tiro ao alvo sim
é tiro ao alvo
é bate-bate sim
e eu me salvo
careca de saber
um tanto calvo

Quando não há por que
de diversão:
é splash sim
é sim splash
também fui assim
crachá de creche
até faria fumaça
mas quem se esquece?




Cidadão das nuvens
Renato Silva

Tuesday, January 24, 2006

Para que Deus crie coragem



Que esse algo em sua pele
mágico e entorpecente
crie asas e voe
para que Deus crie coragem
de refazer o crepúsculo

Um segundo
mais intenso mais belo
para que todas as mulheres saiam
de seus casebres
(panelas no fogo)
e se apaixonem na ilha

Crepúsculo tal
que
inspirado nesse algo
suicide o diabo
livrando assim
minha alma do coma.




Cidadão das nuvens
Renato Silva

.






PÊNI SEXO XOTA




.
Os meninos daquela infância


Giz-de-construção
para rabiscar no chão

a palavra vermelha

Descalço é
a melhor chuteira

Portão-do-céu escancarado
te convidou também
aceite de bom-grado
e vá além

Um sorriso escrachado
nos transporta ao passado:
nossa máquina do tempo

Eu e você somos dois
Você e eu somos Deus
Nós dois e Deus somos três:
Três mosqueteiros ateus

Cinderela do chinelo
que perdi de espaçoso:
Atrasei o meu relógio

Mas os meninos
daquela infância
não tinham bigode

Mas as meninas
daquela infância
não tinham bigode
no meio das pernas.
Dilúvio



Nuvens carregadas de chuva
pelo vento carregadas
O céu deixa de ser azul uva
e passa a ser uva-passa

No dilúvio quero estar de luvas
pegar a gota e devolver ao céu
trocar a água por fanta-uva
pois sou abelha e me interessa o mel

O guarda-chuva é o guarda
me protege com a farda
(negra como a nuvem escura)

O guarda-chuva é o guarda
o meu fogo se resguarda
e fidelidade jura.

Wednesday, September 28, 2005

A lvará
S . A lvará
U . S . A lvará
Jes U . S . A lvará

.



Pombas


homens
homens bombas
homens

somem
somem pombas
somem

homens bombas
homens
somem pombas
somem

:

somem de somar
não de sumir




Cidadão das nuvens
Renato Silva

Tuesday, September 13, 2005

Anomalia


A anomalia
de não ter orelhas
me afasta das mulheres

Foi presente
a uma puta
que não sabe Van Gogh

Por um amor verdadeiro
eu cortaria o pulso.